Nelson Braun

Pinto, esse maldito

Em 1, abril 24, 2009 às 5:45 pm

Nossa época é marcada por hipocrisias, moralismos conservadores extremistas e liberalismos disfarçados. E um dos “seres” mais injustiçados é justamente o pinto, vulgo órgão sexual masculino, também chamado pênis. Quase tudo se liberta ou está se libertando das amarras moralistas, menos o pinto. Sempre escondido, dentro da cueca ou atrás de tarjas pretas, como os remédios psiquiátricos. O pinto acuado, escondido, censurado, vem perdendo seu valor como órgão, como símbolo.

Assistia a um filme erótico outro dia e qual não foi a minha surpresa ao constatar que o pinto usado nas cenas era um dublê. Não sei com qual mecanismo o ator amarrava a geringonça na cintura e fingia possuir um eterno pinto duro, mas de borracha. Só depois de muitas pesquisas constatei que o filme era para o público americano, e o diretor para não cair numa censura mais grave, usou o dito de borracha.

Mas não é só nos EUA que um pinto causa tanta comoção, tanta polêmica. Em terra Brasilis também temos nossos exemplos, centenas de filmes onde o coitado foi cortado, ou mesmo censurado antes de aparecer, temos a musica do Ultraje a rigor falando juntamente sobre isso nos anos oitenta.

Porém nenhum exemplo me causa mais repugnância ante a repugnância com o pinto do que as embalagens de cigarro. Não sendo fumante meu contato com as caixas são esporádicas, mas não sem me afligirem a alma as lições que dali se aprende.

Tem caixa com o crânio aberto para falar em derrame cerebral, feto morto para ilustrar parto prematuro e morte por intoxicação, tronco aberto numa maca de autopsia falando em câncer e enfisema, peito aberto com cigarros no coração advertindo contra doenças do coração, pé com dedos gangrenados, ratos mortos e etc. Mas as caixas que alertam contra a impotência ou é um cigarro com as cinzas apontando para o chão, simbolizando um pênis brocha (como se o pinto já não fosse um símbolo) ou um cara sem camisa olhando para baixo, e na frente do órgão uma mão feminina com o polegar sinalizando para baixo e escondendo o pinto.

Conclusão, a simples imagem de um pinto é mais feia ou mais chocante ou mais censurada ou mais odiada, mais evitada, enfim… que a de um derrame cerebral ou um feto morto ou um tronco aberto ou um coração cravejado de cigarros ou um pé gangrenado, ou ratos mortos ou todas as outras. Acredito que uma imagem mais real e contundente sobre a impotência seria muito mais eficaz para alertar a parcela masculina que fuma ou se encaminha para tal, porém o pinto ainda é um tabu a ser ultrapassado.

As vezes parece que ele não vai em direção a sua libertação, mas a sua extinção. O pinto em outras áreas já parece artigo de antiquario. Antigamente ele era imprescindível para se engravidar, hoje não mais. Tanto já se inventou na indústria do sexo, vibradores, consolos, brinquedos diversos que o pinto ou os seus representantes estão acuados, acovardados, não lutam mais pelo simples direito de ter um pinto, muitos homens tem vergonha dos seus pintos, de serem homens, em grande parte dos adultos contemporâneos existe uma culpa quase secreta em ter nascido um falo.

Há muito tempo que o pênis símbolo perdeu sua conexão com o passado, onde era um símbolo poderoso, de criação, de vida, honrado e cultuado como uma força da natureza, juntamente com a vagina, suas eterna companheira e sem a qual ele não vive, sem trocadilhos. Mas primeiro transformamos a xoxota sagrada, simbólica numa coisa maldita e ela foi execrada e tornou-se um simples buraco e agora (há muito séculos dura esse agora) repetimos com o pênis, o falo sagrado, simbólico, ele vai tornando-se um simples expelidor ou brinquedo mal usado para fugir do stress.

Devemos salvar o pinto e a xoxota sagrados da fogueira dos nossos moralismos ultrapassados, das nossas contradições infantis, antes que nos castremos irremediavelmente.

  1. 8=================D

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